
Uma das coisas que mais me impressionou logo que cheguei a Lisboa foram os inúmeros artistas de rua espalhados pelo Bairro Alto e pela Baixa-Chiado, lugares frequentados especialmente pela turistada. Não verdade, não apenas pelos artistas em si, mas pela qualidade do seu trabalho e as suas histórias.
Resolvi, então, fazer uma matéria com eles! Para minha surpresa, descobri algo revelador: eles ganham muito dinheiro! Há quem ganhe 100 euros por dia!
Vou confessar uma coisa: por pouco, muito pouco, não me ofereci para ganhar o mundo com eles! Não pela grana, mas pela possibilidade de viajar mundo a fora a fazer arte.
Confere aí!
A arte que vem das ruas
A rua, o palco. Os transeuntes, a plateia. Os artistas de rua de Lisboa não contam com o glamour de uma apresentação no Teatro Nacional, mas esbanjam criatividade e talento suficientes para encantar um público menos exigente. São músicos, malabaristas e estátuas vivas que se apresentam com simplicidade para pessoas apressadas, que circulam pela região da Baixa-Chiado.
A noite já começa a cair quando o casal de namorados portugueses Luaya Almeida, 27 anos, e Paulo Pinto, 30, saem da carrinha estacionada às margens do Rio Tejo para mais um dia de trabalho. Ocupação, confessam, nada convencional: com uma flauta irlandesa a postos, tocam músicas celtas. Enquanto Luaya toca, Paulo, com um copinho de refrigerante 250ml do McDonalds em punho, circula pelos arredores na tentativa de angariar algumas moedinhas entre as pessoas que circulam em frente à Basílica dos Mártires. Como ninguém pára para ouvir as canções, Paulo dirige-se aos desconhecidos com passinhos suaves e simpatia e recita: “Boa noite, cavalheiro. Uma ajuda para a flautista, que ela é gravista. E ela é doce. Mais doce do que arroz doce”. O som medieval aliado à simpatia do pedinte faz com que o comerciante Manuel Santana, 58, não hesite em entregar-lhe todas as moedas que havia no seu bolso. “Eles realizam um trabalho muito bonito. Sempre que posso, ajudo. A música é relaxante”, diz o comerciante, enquanto caminha em passos apressados.

Mercado do Bairro Alto
O trabalho, porém, é duro. Pausa de apenas dois minutos na hora de fumar o Marlboro Light, o qual compartilham para não perder tempo. Ou, então, para a flautista reconquistar fôlego e fazer carinhos em Mamuth, um cão da raça Greyhound, de sete anos, considerado filho do casal. A jornada de trabalho não é fixa – cerca de três horas diárias –, assim como a renda, que pode variar de 80 a 100 euros por dia. Os ganhos renderam-lhes o sonho da casa própria. Melhor, a compra de uma carrinha, uma espécie de casa ambulante. Com ela, circularam por quase toda a Europa e, também, aprenderam sobre as línguas e culturas locais. “Falamos espanhol, francês, inglês, italiano e um pouco de alemão e holandês”, gaba-se Luaya, enquanto caminha em direcção à carrinha, com o copinho de refrigerante transbordando de moedas.
Quem parece seguir feliz para a sua carrinha, também adquirida graças às economias adquiridas com o trabalho na rua, é o malabarista belga Stijn Flamengo, 25 anos. Jey, como gosta de ser chamado, senta-se diariamente – excepto em dias de chuvas – no muro que dá acesso à estação do metro, em frente ao café A Brasileira, especialmente à noite. Ali, regula o amplificador que reproduz em alto volume música pop misturada com cigana, embebeda as extremidades do seu bastão com petróleo e risca um palito fósforo. Em cerca de quatro minutos, Jey encanta uma pequena plateia que pára para observar as piruetas que realiza com seu bastão preto, de cerca de 1m50cm. Não recebe aplausos, nem cumprimentos, mas na sua jaqueta, esticada em frente ao palco imaginário, começam a surgir as primeiras moedas. São miúdas, na sua maioria de 10 e 20 cêntimos, mas suficientes para contribuir para o artista, que ganha de 30 a 100 euros por noite. “O meu trabalho é diversão, toda a gente está a curtir. É isso que importa”, diz o sorridente malabarista, enquanto bebe uma cerveja de latinha e fuma um cigarro.
A vida como artista, porém, não foi opcional. Em 2004, com o diploma de pintor na mão, veio a Portugal na companhia de dois amigos belgas. A intenção era, como a de muitos imigrantes, ganhar dinheiro. Nada disso aconteceu. “Quando vi, era um morador de rua, um pedinte. Mas queria trabalhar, não queria pedir ou roubar”, recorda Jey. Em 2007, assistiu a uma apresentação de malabarismo com fogo e decidiu que era daquela forma que sobreviveria. As marcas da aprendizagem podem ser vistas no corpo, repleto de cicatrizes. Isso, porém, não desanima o artista. Para ele, ganhar a vida na rua, viajar e poder manter sua carrinha bastam para deixá-lo feliz. “Na rua, encontro toda a gente. Onde quer que chegue, sou recebido com festa pelos amigos”, comemora Jey.

Armazéns no bairro Chiado no Natal
Se por um lado Jey, Luaya e Paulo voltam para suas carrinhas satisfeitos com o que arrecadaram, 200 metros adiante da Basílica, um artista de olhos tristes e avermelhados, não teve uma noite lucrativa. É o romeno Tarziu Liviu, 29 anos, uma estátua viva com vestes nos tons de preto e dourado, boina igualmente negra, que mais fazem lembrar Napoleão Bonaparte, famoso imperador francês. Em posição de estátua em cima de um pequeno banquinho plástico, coberto por um manto preto, Tarziu arrecada em uma hora de trabalho uma única moeda de 5 cêntimos. “Não posso obrigar ninguém a contribuir”, adverte a estátua viva.
Tarziu sobrevive como artista de rua há sete anos. Sua história se confunde com a de Jey, uma vez que veio a Lisboa há sete anos para trabalhar na cidade. Como o patrão não pagava, afirma, decidiu comprar dois lençóis brancos, construir uma fantasia e foi às ruas. Percebeu que tinha talento e até hoje trabalha no ramo. Ele, porém, afirma não possuir casa própria ou carrinha e seus lucros são mais modestos: precisa aproximadamente de quatro horas de trabalho para arrecadar 10 euros.

Praça Luis de Camões no Bairro Alto, Lisboa.
A profissão de estátua parece não ser fácil. Ao final da noite, os braços e as pernas reclamam, exigindo descanso. Os olhos estão vermelhos, já que se movimentaram parte da noite para interagir com o público. Nada disso, porém, desanima o artista. No outro dia, promete estacionar seu banquinho no mesmo local, mesmo que ganhe apenas uma outra moedinha de 5 cêntimos.
A Baixa-Chiado é, sem dúvida, o maior reduto de artistas de rua de Lisboa. A maioria deles concentra-se naquele local, pois é ali que circula boa parcela dos turistas que visitam a cidade. E são eles, afirmam os artistas, que mais contribuem para o trabalho artístico realizado por estes singelos trabalhadores. São pessoas que realizam manifestações artísticas distintas, porém, carregam algo em comum: o amor pela arte. E garantem: quando há amor pela profissão, não há crise financeira mundial que os abale.
Janaína Kalsing é jornalista, trabalha no jornal Público e reside na bela capital portuguesa