Coimbra: só se for de trem

Nós, brasileiros, não temos o hábito de andar de trem. O motivo é um tanto óbvio: praticamente não temos esse meio de transporte no País. Uma pena. Há dois finais de semana, tive o privilégio de fazer uma linda viagem pelos trilhos de ferro até Coimbra e o Porto observando, bem acomodada e tranquila no vagão 26, as paisagens de um Portugal rural. Particularidades da ida a parte, vamos ao que mais interessa: Coimbra.
Situada às margens do vibrante Mondego, conhecido como o “Rio dos Poetas”, a antiga capital de Portugal fica um tanto deserta no período de férias, já que sua vida está intimamente ligada à Universidade de Coimbra, que é uma das grandes responsáveis pela economia e turismo local. E é dela que quero falar.

Vista da cidade de Coimbra, Portutal.
Depois de uns 15 minutos a subir uma extensa ladeira, de ruelas estreitas, de roupas penduradas a secar ao vento nos varais das antigas construções, avistei a Universidade. De imediato, tive uma estranha sensação: um misto de alegria e frustração. A Instituição, uma das mais antigas da Europa – ela foi fundada em 1290 – estava ali, na minha frente, jogada às traças. Isso mesmo, aos bichinhos que gostam de comer roupas.
Eu explico: o primeiro local a conhecer foi a Faculdade de Direito. No pátio, ao invés de existir um belo gramado verde, com estudantes estendidos a ler, avistei um amontoado de pedras. Sem sequer uma plantinha. A torre, também ali localizada, não podia ser visitada pelos turistas, pois estava interditada. Tudo muito precário.
Bem, mal sabia eu que a minha frustração estava com os segundos contados. Acontece que ao lado da Capela de São Miguel, ainda naquele pátio feio, avistei uma biblioteca que é bonita até no nome: Biblioteca Joaninha. De um estilo único, ao gosto barroco, é composta de três salas, que se comunicam por arcos decorados em madeira policromada. As paredes são cobertas por estantes vermelhas e verdes, com decoração dourada. E, claro, sem contar os intermináveis livros, cerca de 250 mil, que se distribuem desde o século XII até o XIX.
Depois do deslumbramento com a Joaninha, encontro a Faculdade Medicina. Ali, para aumentar ainda mais minha alegria, prédios bem cuidados, árvores, plantas, alunos vestidos com trajes típicos com faixas coloridas que identificam a sua faculdade. Ufa! Confesso que senti um alívio no peito pela segunda vez. Impossível que a famosa Universidade de Coimbra estivesse largada aos bichinhos aqueles. Quando comentei com os meus colegas de redacção do Público sobre minha frustração, me disseram algo alentador: ano passado, houve um protocolo de apoio do Governo português à candidatura da Universidade a Património da Unesco. Embora não saiba muito bem o que isso significa na prática, espero que seja para conservar aquele lugar de tanta história.
Então, se o destino for Coimbra, não esqueça de viajar de comboio (trem) e visitar a Universidade de Coimbra. E se o calor apertar, tome um gelado (sorvete) às margens do “Rio dos Poetas”.
Janaína Kalsing é jornalista e reside na bela capital portuguesa



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